⚡ Resumo rápido:
- Em 30/10, o papa Leão XIV discursou no Vaticano para cerca de 20 participantes de um encontro sobre IA.
- Frase central: “as máquinas são ferramentas, não pessoas”. Ele criticou propostas de dar direitos ou personalidade jurídica à IA.
- Decisões sobre vida, liberdade e uso da força devem ficar sob supervisão humana; a IA deve ser “desarmada”.
- Leão XIV pediu que os países reunidos em Genebra, em novembro, avancem para banir armas autônomas letais.
- No Brasil, a lei não dá personalidade jurídica à IA, lembrou a Defensoria de SP, procurada por uma mulher que pede direitos para um chatbot.
Na sexta-feira (30), o g1 contou que uma mulher de 36 anos procurou a Defensoria Pública de São Paulo em busca de direitos para a IA que considera seu companheiro. No mesmo dia, no Vaticano, o papa Leão XIV disse a especialistas que “as máquinas são ferramentas, não pessoas”. Não foi uma resposta ao caso, mas o tema é o mesmo.
Onde e para quem o papa Leão XIV falou
O discurso foi na manhã de 30 de outubro, na Sala do Consistório do Palácio Apostólico, para cerca de 20 participantes do congresso “O futuro da IA: um diálogo entre o Vaticano e o mundo científico”, segundo o Vatican News. Organizado pela Pontifícia Academia para a Vida e pelo Future of Life Institute, o encontro reuniu nomes como o físico Max Tegmark, do MIT, segundo a EWTN News.
Leão XIV lembrou Francisco, que no G7 de 2024 defendeu que nenhuma máquina decida tirar uma vida humana, e apresentou cinco considerações baseadas na encíclica Magnifica Humanitas.
As frases principais do discurso
- Futuro em aberto: “O futuro da inteligência artificial não está predeterminado.” A pergunta decisiva é “a que finalidade ela deve servir?”.
- Ferramentas, não pessoas: citando a encíclica, lembrou que essas inteligências “não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não passam pela alegria e pela dor”.
- Decisões indelegáveis: “Certas decisões nunca devem ser delegadas.” Quem entra numa lista de alvos ou num banco de dados de fronteira pode virar “um mero dado”.
- Instituições: o desafio “talvez mais urgente” é criar instituições internacionais que apliquem esses princípios.
“Hoje, alguns propõem conceder direitos a esses sistemas, ou até personalidade jurídica. Essa abordagem corre o risco de obscurecer a responsabilidade humana e de deixar quem sofre danos diante de uma entidade sem rosto.”
— Papa Leão XIV, discurso de 30/10 (texto oficial da Santa Sé)
O que significa “desarmar” a inteligência artificial
A palavra vem da encíclica, assinada em 15 de maio. No parágrafo 110, desarmar a IA é tirá-la da lógica da competição armada, que hoje é militar, mas também econômica e cognitiva: a corrida por algoritmos e bancos de dados.
“Desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar. Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano”, diz o texto. Sobre a guerra, o parágrafo 198 é direto: “não é lícito confiar a sistemas artificiais decisões letais ou, de qualquer forma, irreversíveis”.
Armas autônomas letais: o que está em jogo em Genebra
De 16 a 20 de novembro, Genebra recebe a Conferência de Revisão da Convenção sobre Certas Armas Convencionais (CCW), segundo a campanha Stop Killer Robots. Ali, os países podem decidir negociar um tratado sobre essas armas.
Em agosto, o secretário-geral da ONU, António Guterres, e a presidente da Cruz Vermelha Internacional, Mirjana Spoljaric, alertaram: “Estamos perigosamente perto de cruzar uma linha vermelha moral: o ataque autônomo a seres humanos por máquinas.”
As fontes divergem sobre setembro. Segundo a Reuters, os 128 países da convenção aprovaram um texto não vinculante, por resistência de Estados Unidos e Rússia. A ANSA chamou o resultado de acordo “histórico” em que quase 130 países “concordaram em proibir” os robôs assassinos.
Direitos para a IA: o debate que o papa rejeitou
Em 2017, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que pedia estudar, “a longo prazo”, um status de “pessoas eletrônicas” para robôs autônomos sofisticados, responsáveis pelos danos que causassem. O trecho ficou, apesar de 285 votos para retirá-lo. Uma carta aberta de especialistas chamou a ideia de “ideológica, sem sentido e não pragmática”.
O que é novo em relação à encíclica:
| Tema | Discurso de 30/10 | Magnifica Humanitas (maio) |
|---|---|---|
| Natureza da IA | “Máquinas são ferramentas, não pessoas” | Parágrafo 99: sem experiência, corpo ou consciência moral |
| Direitos e personalidade jurídica | Critica quem propõe concedê-los à IA | Não trata do tema de forma explícita |
| Decisões sobre a vida | Supervisão humana “eficaz, informada e responsável” | Parágrafos 198 a 200: decisões letais não cabem a máquinas |
| “Desarmar” | Repete a palavra (parágrafo 110) | Tirar a IA da corrida militar, econômica e cognitiva |
| Armas autônomas | Pede passos concretos em Genebra rumo ao banimento | Pede regras internacionais, sem citar fórum ou data |
E no Brasil?
O Brasil tem a maior população católica do mundo, segundo o Pew Research Center. A Santa Sé informou ao g1 182 milhões de batizados no país no fim de 2022.
A mulher ouvida pelo g1 diz que o vínculo começou há cerca de um ano, em conversas sobre espiritualidade no ChatGPT, da OpenAI. Em agosto, ela cadastrou no e-Cidadania, do Senado, uma ideia legislativa por direitos para “inteligências conscientes”: tinha dois apoios em 30/10, segundo o Migalhas, e precisa de 20 mil até 26 de dezembro. Ao Estadão, a Defensoria não comentou o caso, por sigilo, mas afirmou que a lei não prevê personalidade jurídica para sistemas de IA nem vínculo conjugal com eles.
O Código Civil só reconhece pessoas naturais e jurídicas, como associações, sociedades e fundações. O marco da IA (PL 2338/2023), aprovado pelo Senado e à espera de parecer na Câmara, aplica o Código Civil e o de Defesa do Consumidor aos danos e cobra desenvolvedores, distribuidores e aplicadores. Também proíbe IA em armas autônomas, mas não vale para sistemas usados só na defesa nacional.
Na reforma do Código Civil (PL 4/2025), a consultora Layla Abdo de Andrada criticou o capítulo sobre “entidades digitais” por atribuir traços de personalidade jurídica a robôs. Flávio Tartuce, relator-geral da comissão de juristas que redigiu a proposta, respondeu que são “entes despersonalizados”, como condomínios, segundo a Rádio Senado.
Perguntas rápidas
O que o papa Leão XIV disse sobre inteligência artificial?
Que máquinas são ferramentas, não pessoas, que decisões sobre a vida não podem ser delegadas a elas e que armas autônomas letais devem ser banidas.
O que são armas autônomas letais?
Armas que, depois de ativadas, escolhem e atacam alvos sem nova intervenção humana. É a definição do PL 2338/2023, que proíbe IA nesses sistemas.
Inteligência artificial pode ter direitos no Brasil?
Não. O Código Civil só reconhece pessoas naturais e jurídicas, e o marco da IA em discussão põe a responsabilidade nas pessoas e empresas por trás do sistema.
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Fontes
- Santa Sé — Discurso do papa Leão XIV aos participantes no encontro promovido pela Pontifícia Academia para a Vida (30/10/2026)
- Santa Sé — Carta Encíclica Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA (15/05/2026)
- ANSA Brasil — Papa alerta contra IA e pede banimento de armas autônomas letais (30/10/2026)
- ONU Genebra — Renewed call from the UN Secretary-General and the ICRC President to adopt rules on autonomous weapon systems (25/08/2026)
- g1 — Mulher vive romance com IA e busca reconhecimento jurídico para ‘companheiro’ em SP (30/10/2026)
- Estadão, via Terra — Mulher diz ter relacionamento com IA e defende reconhecimento legal de direitos em SP (30/10/2026)
- Câmara dos Deputados — PL 2338/2023, marco da inteligência artificial: texto e tramitação (17/03/2025)